terça-feira, 19 de junho de 2018

Viagem ao Pirinéus Catalães - Dia 1

Preconceitos - Nem tudo é o que parece

 
Quando acordei, sentia os meus pulmões agrilhoados pelo ar mofo de passados podres e ansiosos do vento frio dos sonhos novos. Tinha decidido largar o presente, levar na bagagem apenas as paixões que planeava vestir e que se cruzavam todas nos Pirenéus catalães. Estávamos em 20 de Abril e o voo para a liberdade era ás 7:30 na Portela, e o acordar duas horas antes, tinha de aprender a voar sozinho.
 

A bordo, Feito o check-in só com bagagem de mão, para viajar leve, pus-me a fazer jogos mentais de quem, pela fisionomia das pessoas é que iria para Barcelona, quais iriam para Amsterdão e quais para Londres? Ou quanto tempo levaria eu para ouvir falar catalão? Passo o controlo de passageiros, entro no avião com o bilhete na mão e o número de assento bem na cabeça e sento-me ao lado de um senhor africano, mesmo negro, grande de altura, grande de largura e grande de sorriso.
 
Enquanto as hospedeiras faziam a coreografia a bordo mil vezes ensaiada e outras mil apresentada, que nos ensine como morrer seguros se porventura o avião caísse. Pedem para levantar os tabuleiros e chegar os assentos à frente e o meu vizinho do lado responde num olhar cúmplice, "ainda mais?"

 

O arranque para levantar voo adormeceu-me até meio da viagem e a segunda metade foi feita a comer a sandes servida pela TAP e o planificar do resto da viagem. Chego ao Prats, sinto saudades de ouvir falar catalão e olho ao meu redor, a tentar apanhar nas caras mais mediterrânicas às espera de sons que me sejam reconhecidos. O meu colega africano liga o telefone, eu ligo o meu, vejo um casal de raparigas com o tez morena e ar alternativo, afino o ouvido e ouço um sotaque brasileiro. Recebo mensagens em catadupa, o telemóvel do meu camarada africano parece que ganhou um jackpot de mensagens, tiro o meu trolley da gaveta por cima de mim, o meu colega grande, de sorriso farto põe o telefone no ouvido e diz: "He aterrat!", afinal o primeiro a falar catalão estava ao meu lado e eu perdi uma hipótese de parlar la llengua.

Barcelona

 
Apanho o Aerobus e, quando as portas se abrem numa Plaça de Catalunya inundada de sol, de confusão e de turistas, é vestido para o inverno num meio dia de verão que aterro finalmente na cidade feiticeira. Estão cerca de 25º de temperatura.

 

Faltam duas horas para o comboio que me levará a Puigcerdà, que tenho de encontrar um local para almoçar. Um tasco ao lado do McDonald's chama-me a atenção. De decoração simples em madeira e recheado de empregados carrancudos e apressados, o Picadero acaba por ser a solução gastronómica mais acessível para quem quer viajar pela Catalunha e evitar os habituais, Mc Pollastre, Quart de Llibre amb fromatge ou o Big Mac. Peço como entrada um Pa amb tomáquet, a simplicidade de um pão torrado com um fio de azeite e barrado com tomate esfregado. Pessoalmente acrescentaria orégãos, mas isso é a minha costela de português a falar.
 
Bem no ventre de Barcelona, chego à estação de Plaça de Catalunya, e de bilhete na mão contemplo a massa de nativos que vão e vêm, sobem e descem de comboios num ritmo atribulado. Vejo as caras de preocupação de uns, de alegria de outros. Cruzo-me com olhares cinzentos e semblantes carregados. Reparo na rapariga a passar na plataforma em frente com um Hijab a cobrir a cabeça, vestida de tshirt de alças e com uns calções curtos, num estilo que eu classificaria de islâmico sensual. Atrás de mim um grupo de rapazes na galhofa, e ao meu lado, uma rapariga só, de olhos vermelhos pregados na plataforma quase a chorar, e tento adivinhar se acabou com o namorado ou se teve uma má nota num exame especial.
 
Vejo os comboios a bombar o sangue e o oxigénio que faz viver uma cidade assim, comboios carregados não de homens e mulheres, mas carregados de sonhos e desilusões que despejam e levam que motivam a trabalhar, a conhecer pessoas, a conhecer o amor e o desamor, a levantar prédios, construir famílias e edificar memórias de momentos que ficarão para sempre naquelas ruas.

 

Há quem não goste de comboios, quem diga que são lentos, que são desconfortáveis ou não confiam nos horários que mantém, mas eu gosto de comboios. Gosto da sensação de pousar a mala, abandonar o corpo no banco e por os olhos a passear pela paisagem que nos envolve e voar com a mente. Gosto de me libertar da necessidade concentração constante que o carro exige, e na necessidade de controlar tudo que a vida atual requer.

Três horas de Comboio

 
“Linea R3 tren amb destinació a La Tour du Carol”, é a minha vez de subir e procurar um lugar num comboio que se enche de estudantes e trabalhadores. Esperam-me três horas de viagem, mas se fosse de carro pouco menos tempo faria e os 12€ do bilhete ficam muito em conta. Arrancamos e aos poucos saímos dos túneis do metro e chegamos aos bairros suburbanos de uma cidade, mais ou  menos limpos, mais ou menos organizados onde grande parte da gente sai. Fico sozinho na carruagem com um casal de idade, uma universitária e uma senhora de meia idade.
 

A paisagem urbana vai dando lugar à campestre. Seguem-se longos campos pintados de espigas verdes aleatoriamente pontuados de vermelho pelas pétalas de papoilas com uma mansão rural de calcário a dominar o terreno. Terreno após terreno, e mansão após mansão, a paisagem lembra um postal da Toscânia, ou melhor, se calhar a Toscânia é que me lembra a Catalunha. Por detrás deste primeiro plano idílico, montes carregados de bosques mediterrânicos o cenário.
 
À minha volta senhora de meia idade martela freneticamente no portátil, o casal de idade viaja para casa de mão dada, aparentemente, preocupado e a rapariguinha universitária de cabelo castanho claro apanhado num rabo de cavalo, não pára na cadeira, com um olhar inquieto que procura à sua volta uma segurança que não encontra. Sim, é verdade, confesso, tenho uma tendência para fazer filmes na minha cabeça, e com a idade aprendi a gostar de ser assim. Baixo os olhos da carruagem e mergulho num comboio de letras e palavras do livro que levo no colo. Mas este comboio de letras faz mais paragens em mais estações no seu caminho que o comboio com as janela abertas para um mundo novo que me chama lá de fora e facilmente mudo de viagem novamente.


 
Pouco a pouco, depois de passar pela cidade Vic os montes mediterrânicos dão lugar a montanhas com escarpas de meter respeito. O casal adormeceu, por outro lado, é um milagre como aquele computador ainda tem teclas e a rapariga universitária hesitante muda de lugar para o fundo da carruagem do outro lado do corredor onde me encontro, , tira uma flauta e uns cadernos da mochila, e segura a flauta em frente à boca decidida. Abre a sebenta e vejo uma gralha desenhada (uma gralha é um instrumento tradicional catalão de sopro com palheta dupla como a gaita de foles, que é tocado normalmente com Tarotas e outros).
 
A rapariga tímida e hesitante, agora já não o é, agora que assumiu a sua paixão o nariz linear e o maxilar proeminente, a estudar musica, tornou-se numa mulher firme e confiante, quase uma guerreira.

 

Entretanto, entrámos nos Pirenéus. Quase não consigo ver o topo das serranias acima de mim e, acima das florestas de pinheiro negro, faia e abetos, começam a aparecer os primeiros lençóis de neve. O comboio avança a uma velocidade mais lenta e ao nosso lado o Ter desce as pelo vale que nós subimos. Nas margens do riu, nota-se que as pastagens estiveram debaixo de neve durante o Inverno. A arquitetura também se alterou, as casas agora são de xisto, com portadas de madeira e telhado de ardósia. Parece que chegamos à Europa Central.
 
Nesta altura, sucedem-se as paragens em aldeias pequenas, no meio da montanha, ligadas ao turismo de inverno na neve, Toses, La Molina, Utrx/Alp e finalmente Puigcerdà. São seis horas da tarde e quando saio do comboio, estão cerca de 12º , o ar fresco bate-me na cara abre-me os olhos meio adormecidos da viagem e acelera o coração.

 

 
A estação de comboio tem dois andares e foi construída no final do séc. XIX, e o segundo andar é o Hotel Parada que reservei. O Hotel em si, ou seja a renovação interior, foi efectuada há muito poucos anos, mas respeitando as vigas, os tectos e as janelas originais. As instalações são encantadoras, com o quarto as ser decorado em madeira e pedra em vários tons de cinzento. A cama é enorme e recebe os restos de mim num abraço envolvente. casa de banho impecavelmente limpa e o duche farto e quente.
 


Estou pronto para ir jantar. Atravesso a praça da estação e, indeciso entre ir de escadas ou de elevador, apanho… as escadas. Que não é fácil, são quase cem metros de altimetria entre a estação e o centro da cidade, suado e quebrado quando chego ao topo, viro-me para trás, naquela luz dourada de fim de tarde respirei fundo e de uma golfada só inalei todo aquele vale entrou dentro de mim, o ar, as montanhas enormes, os picos de neve, as florestas, os prados pintados de um verde impossível ficaram insculpidos e pintados no meu peito. De um golpe só a Cerdanya tinha-me roubado o coração, o ar e os sonhos para sempre, a curva do seu vale era como o sorriso de uma rapariga que nos marca para sempre. Os meus olhos ficaram presos num ponto qualquer ausentes de mim. senti que eu sempre conhecera aquele local, de repente sempre pertencera ali.



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Peter és tão parvo! - Carta Aberta de Despedida a um Professor de Salsa






 (escrevo zangado)


Há uns anos atrás, enquanto a minha vida pessoal navegava pelo centro de um furacão de emoções, onde o meu eu exterior e meu eu interior se tentavam encontrar um ao outro, uns amigos convidaram-me a ir experimentar as aulas de salsa com o Peter na EDSAE, e tanto o nome daquela escola como o do professor esmagavam-me de respeito e medo.



É preciso referir que desde há muitos anos o Peter é um dos cantos de um triunvirato de Salsa (que também inclui a Bibi e o Angel) que inflama a comunidade Salseira nacional. Três pessoas que partilham um fogo na cabeça, que lhes desce aos braços, ao torso e às pernas, e que quando dançam semeiam o mesmo fogo, a mesma paixão, nas cabeças de quem se deleita a ver. Foram os congressos organizados, as coreografias que foram desenhadas, as festas montadas que engravidou e pariu esta dança neste país que alimentou uma comunidade esfomeada sempre por mais e mais daquela fonte.


Tremolente aceitei o repto e, pé ante pé, às 21:30 em ponto duma quarta-feira qualquer de primavera, lá entrei num estúdio de dança, de chão de madeira encerado e um espelho a toda a largura, para encontrar no centro da sala uma espécie de Fauno Prateado, ou de Sátiro Grisalho a comandar, com sotaque portuense, as operações.
 

Com aquele Sátiro encontrava-se a ninfa Dra. Aurélia, perdão Ariella, e a aula lá começou. Para minha surpresa, passo a passo, fui sendo capaz de replicar medianamente o que era proposto e notava, principalmente pela expressão das raparigas da turma que devia estar a fazer alguma coisa bem (moltes grácies aos professores antecessores Mário e Sónia pela preparação anterior).

 
Avisaram-me no início (fontes anónimas e protegidas) que tinha um feitio terrível, que era muito exigente, que maltratava e rebaixava os alunos, o que servia para aumentar aquele receio inicial.

 
Com o passar das semanas e meses, veio alguma descontração, perante aquela fobia inicial, e o apreciar o humor fino do Peter, palavras que nos partem em gargalhadas. Piadas de pitada amarga, que se digeriam com uma gota de sarcasmo. Sempre pensei o sarcasmo, em geral resultasse de uma forma de defesa pessoal contra sonhos que se tornaram demasiado pequenos para alguém, que deram em folhas secas quando não se substituem por outros novos, ou fruto de desejos que não sendo colhidos na altura certa, fermentam com o passar do tempo, como a uva e o vinho. Mas isso …

 
A verdade é que nunca encontrei um professor que conseguisse tão bem dissecar um passo, uma coreografia. Como se fosse um cirurgião latino, aqueles olhos eram um bisturi afiado que separavam cada fase de cada passo, entre movimento de mãos, de braços, de pé e de corpo. Olhos que identificavam qualquer erro, se focavam nessa fase, e se propunham a corrigi-lo e reuni-lo com as outras fases até que o passo, se apresentasse no final uno com uma cicatriz perfeita, invisível.

 
Depois de aprender um passo lá ficava eu com o ego lá em cima, mas tu Peter, não contente com isso, detetavas sempre algum pormenor que podia ser melhorado, uma mão que devia estar mais abaixo naquele tempo da musica, ou um pé que devia passar pela frente e não por detrás para não desequilibrar o par, e aquele humor hepático, ou outonal se preferires, era perfeito para me picar, para me mandar lá para baixo outra vez e me auto obrigava, a engolir o orgulho, a cerrar os dentes, a tentar fazer melhor, no fundo a aprender a ir mais além.

 
E eu todas as semanas lá ia às aulas, num desejo ardentemente masoquista de que me azucrinassem a cabeça, um desejo de aprender, que investisses em mim que me chateasses a medula até ao tutano, para eu em troca dar o melhor de mim.
 

E agora vens com uma conversa de que vai deixar a salsa para se dedicar a outras paixões... porque há um ciclo que acabou e que... Sim, claramente um ciclo acabou mas a tua cabeça não!


És tão parvo, mas tão parvo se deixas de dar aulas de salsa. Irrita-me solenemente os fígados que tomes essa decisão. Não só te privas a ti de uma paixão que tu tens, mesmo que te escondas dela, como privas muitas pessoas, dos teus ensinamentos, das tuas piadas, dos momentos passados contigo que são sempre únicos, privas o mundo da semente daquele fogo e do melhor de ti.


Ver este triangulo desfazer-se depois de vinte anos trouxe-me lagartixas aos olhos, fez-me sentir algures entre órfão de salsa e filho de pais da salsa divorciados.

 
Peter, és o melhor professor de salsa que eu já apanhei, e acredita já tive muitos. Se um ciclo terminou, começa outro! Por ti, por muitas pessoas que já tocaste, por outras que poderás tocar, pela vida.


Gosto muito de ti.
Tudo de bom!


Um Abraço de luz

 




Até já